Trabalhei durante seis anos perto da Av. Conde de Valbom. Deixei de ir com frequência àquela zona em 2012. Hoje, regressei com calma e sentido de observação. Fui à “caça” dos meus sítios… onde almoçava, onde lanchava, onde tomava o café. Descobri que alguns já não estavam lá (o restaurante Manaus era um deles).
Havia um lugar particularmente interessante, a Tasca o Carvoeiro. Entrar ali pela manhã era uma escolha desafiante. Tomar um bom café mas sair de lá a cheirar aos fritos do Sr. João e da Dona Glória ou, ir a outro lado, não cheirar a fritos mas beber um café desenxabido e sem contexto nenhum? Eis a questão!
Durante anos escolhi os aromas matinais da Glória e do João. Dava gosto olhar para a montra de sandes de panados e ovo, para os filtetes de peixe tronchudos. Todos de um amarelo fresco, quente como que acabadinhos de fazer.
Passei por lá e percebi que a tasca continuava ali, de portas escancaradas. Entrei, pedi uma sandes de panado, uma imperial. Sentei-me nas largas mesas de madeira com longos bancos de madeira, mesmo em frente às pipas de vinho. Cada copo de vinho servido na Tasca, sai directamente da torneira das pipas. É à moda antiga? Não, é à moda boa!
Comi com gosto, deliciando-me com tudo à minha volta… um freguês sentado a comer uma salada de orelha e a ler o jornal, o cheiro característico e inesquecível de tasca, o Sr. João a falar ao balcão com outro freguês, a colecção de garrafas antigas, os porta guardanapos cor de laranja de há 30 anos atrás.
Acabada a sandes, o delicado Sr. João serviu-me um pires de tremoços misturados com azeitonas pretas para acompanhar com o resto da imperial por beber. Agradeci-lhe. Sorri com aquele miminho… já ninguém nos põe um pires de tremoços na mesa, assim, desta maneira. Paguei três euros e sessenta cêntimos pela sandes, imperial e um café (o mimo foi isso mesmo, um mimo da casa).
Despedi-me do Sr. João e ele de mim: “Foi um gosto voltar a vê-la!” Surpreendeu-me saber que ainda se lembrava de mim.
Até breve Sr. João, voltarei para uma salada de orelha e por favor, não feche portas, por favor não… tascas como a sua fazem-nos muita falta!
Texto: Raquel Félix – Portugalize.Me/ Imagens: Tasca O Carvoeiro